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Visionário, Gérard Moss ajudou a dar um novo sentido à ideia de expedição

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Em 2009 tive o prazer de uma reunião com Gérard Moss: aviador, explorador, ambientalista, conectado com a aventura, com a academia, com o clima, com projetos maravilhosos. Cheguei a ele por meio de uma recomendação do cientista Carlos Nobre que havia recém participado do filme Zugzwang, que apresentamos na COP15 em Copenhagen.

Na produtora, eu estava envolvido com esse filme, que falava sobre os novos paradigmas energéticos e os impactos climáticos sobre as populações. Agradeço ao Carlos a recomendação e ao Gérard a boa vontade. Conversar com ele foi enriquecedor e fascinante. Era um explorador, um homem que conduzia uma expedição com finalidade determinada.

Gérard falava de expedições “de boca cheia”.

Nascido na Inglaterra, foi criado na Suíça, se mudou para o Rio de Janeiro em 1980 e em seguida obteve nacionalidade brasileira. Era casado com a fotógrafa queniana Margi Moss.

Explorador, aviador, escritor e ambientalista, Moss ficou conhecido internacionalmente por dar a volta ao mundo, duas vezes, em um avião de pequeno porte que ele pilotava.

Logo após a segunda volta ao mundo, em 2003, Gérard iniciou um projeto que, entre outras coisas, serviria para analisar as águas das bacias hidrográficas brasileiras denominado “Brasil das Águas”.

Esse primeiro projeto se desdobrou em outros dois, o “Sete Rios” e o “Rios Voadores”. No Sete Rios, o objetivo era fazer expedições em um barco ao longo de sete grandes rios brasileiros, coletando amostras de água, identificando riscos e ameaças e, principalmente, trabalhando com as populações ribeirinhas na conscientização pela preservação. Já em “Rios Voadores” a ideia era avançar nos conhecimentos sobre a origem do vapor de água transportado pelas massas de ar vindas da Amazônia.

Gérard contou que as conversas iniciais foram com o professor Antonio Nobre, com a colaboração do professor Eneas Salati e outros cientistas. O professor Marcelo Moreira projetou um equipamento que permitia coletar amostras de vapor em pleno vôo. A análise das amostras era feita no Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) na USP-Piracicaba. Tratava-se de quantificar a “evapotranspiração” da floresta amazônica. Enfim, desde 2003 Gérard era parte importante da operação que visava proteger as águas doces do Brasil.

Além de excelente piloto, curioso, realizador, obstinado, Gérard foi uma das pessoas que deu um sentido mais amplo, mais moderno à ideia de expedição:

Uma expedição é a estrutura capaz de planejar, recolher e organizar conteúdo, dando sustentação às atividades de comunicação e implementação de processos, gerando materiais que possibilitam colocar pessoas em contato, em estreita colaboração com a academia e a ciência.

Gérard foi visionário. E realizador.

Vivemos uma época em que a originalidade e a organização do conteúdo são condições imprescindíveis para a criação de consciência. Acreditamos que uma expedição é a estrutura capaz de suportar essa atividade.

Gérard Moss faleceu na última quarta-feira (16). Ele morreu, aos 66 anos, em decorrência de complicações causadas pelo Mal de Parkinson. Deixo meus cumprimentos ao Gérard e o reconhecimento a seu talento, a sua dedicação e a seu legado.


Assista a Zugzwang, documentário que contou com a colaboração do ambientalista e explorador Gérard Moss. Lançado em 2009, na COP15, realizada em Copenhagen, o filme discute o paradigma energético e seu impacto socioambiental. Ele avalia as alternativas para a sociedade e as pessoas se moverem em um cenário de dificuldades: muitos contrastes, muita ação antrópica, riscos iminentes e termina por formular a questão de até onde podemos ir sem destruir o planeta. É dirigido por Duto Sperry e produzido pela Matel Doc.

O ambientalista Gérard Moss teve um papel importante na investigação dos chamados Rios Voadores. O documentário ao lado, dirigido por Bettina Ehrhardt, descreve de forma didática como as correntes de umidade que se formam sobre a Amazônia se dirigem para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil e chegam até o Uruguai e a Argentina. As chuvas geradas por esse fenômeno, hoje ameaçado pelo desmatamento da floresta amazônica, são fundamentais para a produção agropecuária brasileira.

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